Josiane Geroldi – “Histórias para Crianças e Famílias” e “Palavra de Contador”

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Ta chegando! Neste sábado começa o Sétimo Encontro Internacional de Contadores de Histórias – Boca do Céu.

Confira o texto que a Sandra Carezzata, da equipe do Boca do Céu, elaborou sobre a contadora de histórias, atriz e educadora Josiane Geroldi.

A partir das 15h00 deste domingo a chapecoense conta histórias para criança e famílias e faz uma conversa com o público na atividade “Palavra de Contador”.

“O teatro foi a primeira porta aberta por ela. Foi lá que ela conheceu uma professora de teatro que contava histórias e lhe apresentou a arte narrativa quando ela ainda era uma adolescente. Foi essa professora que a incentivou a contar a primeira história: As aventuras do João Grilo numa versão do Ricardo Azevedo. Depois vieram as oficinas de formação de contadores oferecidas pelo Sesc Santa Catarina, depois a formação em Letras – Português, o estágio contando histórias na universidade. Depois outras portas foram se abrindo, mas essa professora de teatro deixou marcas profundas no seu jeito de contar.

Olhando hoje para o seu trabalho como narradora de histórias Josiane diz ver um direcionamento claro para os contos populares brasileiros, os nossos causos, as oralidades do nosso povo, dialetos, ditados, expressões populares. Já no que diz respeito à “performance” narrativa, ela diz ter um interesse especial pela utilização de objetos, adereços, ambientações de espaços que ajudem a contar as nossas histórias artisticamente. A contadora gosta de pensar no objeto no momento da narrativa como uma ponte entre o que se diz, o que se ouve e o que se imagina. Por isso, quase todas as histórias que ela conta trazem algum elemento visual. E nesse caminho, o maior desafio é sempre tentar fugir do óbvio, da redundância no uso do objeto, pensando sempre em proporcionar experiências significativas estéticas e poéticas para quem ouve e ao mesmo tempo assiste o narrador.

Segundo Josiane, a leitura de experiências e reflexões de outros narradores foi e é fundamental para o seu trabalho. Algumas obras se fazem particularmente presentes em sua trajetória como o ACORDAIS de Regina Machado, que já está gasto de tanto manuseio e anotações. Já aconteceram muitas vezes em que ao retomar a leitura desse e de outros autores de referência, como Gislayne Matos, Celso Sisto, Gilka Girardello, Clarice Pinkola Estés, encontrou perguntas anotadas nas páginas que só depois de muito tempo de prática tiveram suas respostas. Algumas ainda não foram respondidas. A leitura de tanta gente boa, com tanta estrada, proporciona segurança, reflexão sobre a prática, para que aos poucos a artista vá se encontrando também como narradora.

Quando se pergunta a esta pesquisadora qual aspecto da arte narrativa que mais a encanta ela fala da suspensão do tempo, quando a verdade do narrador vem tão forte que a gente pode se deixar leva, a entrega entre quem conta e quem ouve. Ela cita Leminski para explicar como sente quando o contador “está por dentro ou está por fora” da história. Quando o encontro acontece e a gente se reconhece humano, sensível, bobo, forte, corajoso, apaixonado, bocó, isso nos aproxima de tal maneira que quando encontramos de novo aquela voz narradora já somos velhos amigos.

Ela tem uma predileção pelas histórias de medo. Gosta de ouvi-las e contá-las. Essas narrativas que trazem temáticas que a gente conhece, sente, mas fala pouco. Esses conflitos humanos universais, como por exemplo, os contos de ciclos da morte, as narrativas de demônio logrado, os causos de visagem, assombramento os nossos mitos. Ela diz que gosta da maneira como quase todas essas histórias se resolvem, e nos ajudam a superar o medo que há em nós. Uma de suas favoritas é “A quase morte do Zé Malandro” – versão do Ricardo Azevedo entre outras.

Uma das questões que a interessam é identificar quais são os elementos que caracterizam um bom contador de histórias. Chama-lhe a atenção o fato de que o que se vê de genial em um narrador pode não funcionar tão bem em outro e isso leva-a a concluir que cada contador precisa encontrar a sua verdade. Um bom contador de histórias seria alguém que oferece o que tem de maneira inteira e sincera. E a “inteireza” vem com tudo que o contador traz por dentro, a sensibilidade de ver e sentir quem o escuta, mas passa também pelo exercício de preparação do que vai ser narrado, é quando o contador entrega aos ouvintes uma “história inteira” por dentro e por fora. Segundo ela, um bom contador de histórias deve se “pré-ocupar” com a história que vai contar, lapida-la, torna-la tão sua, que no momento da apresentação o narrador possa entregá-la inteira para ouvintes, como se dissesse: “- venham, ela agora é nossa!”.

No seu aprendizado Josiane destaca a trajetória no teatro, o treinamento físico em oficinas de expressão corporal e vocal. Foram igualmente importantes a formação em Letras/Português e as leituras sobre literatura oral. Na sua história ela também ressalta o aprendizado com a pesquisa científica das narrativa orais na universidade, as leituras sobre imaginário social, identidade e patrimônio imaterial, a orientação da pesquisa pelas professoras da antropologia que a fez ver o nosso imaginário com beleza e respeito. Mas o mais importante mesmo e o maior aprendizado que teve como pessoa e narradora de histórias, foi e sempre será, sentar nas varandas das casas do povo caboclo da nossa terra, com uma cuia de chimarrão na mão, observar os gestos livres, os exageros, a poesia das palavras simples, a naturalidade com que contam suas experiências e os causos do nosso lugar.”