Os dois papudos

Aquele homem tinha um bom papo. Mas não é como se diz hoje em dia, “quem tem um bom papo é porque é bom de conversa.” Ele tinha mesmo era uma papada enorme embaixo do queixo. No fundo ele achava aquilo muito desagradável, mas em vez de viver arrasado, procurava esquecer seu problema. De dia, pegava firme no trabalho e de noite, cantava e tocava viola, sempre alegre.

Num domingo foi a uma festa em uma cidade vizinha. Como tinha que trabalhar na manhã seguinte, voltou para casa de madrugada. E lá vinha ele sozinho pela estrada, no meio da escuridão. Outro teria ficado com medo, mas ele não.

– Eu não devo nada para Deus, nem para ninguém, – pensava ele enquanto andava tranquilo. – Nada de mal vai me acontecer.

Só que de repente, um pouco mais adiante, ele viu um clarão esquisito, junto de uma árvore à beira da estrada. Chegou mais perto e parecia que tinha gente dançando e cantando em volta da árvore. Era uma roda, sabem do que? De anões, todos de barbas brancas, chapéus de pontas, calças com suspensórios e botas muito estranhas. A luz dos archotes não iluminava muito bem, dava impressão de coisa do outro mundo, de fantasma mesmo.

O homem beliscou o braço para ver se estava sonhando, mas os anões continuaram lá, dançando na maior animação. Ele não sabia o que era aquilo e, muito curioso, foi se aproximando da roda, até que os anões o viram. Agora não tinha mais jeito. Outro teria fugido, mas ele não. Tirou a viola da sacola e pôs-se a tocar, acompanhando a música. Logo estava dentro da roda, junto com todo mundo.

Os anões iam cantando:

Segunda e terça, quarta e quinta…
Segunda e terça, quarta e quinta…

Eles não paravam de repetir o tempo todo a mesma frase e o rapaz acompanhando na viola, até que ele achou tudo muito sem graça e completou:

Sexta e sábado, domingo também…
Sexta e sábado, domingo também…

Pelo menos agora era a semana inteira.

E não é que os anões adoraram a sua invenção? Até quase de manhãzinha ficaram pulando e cantando a nova música, ao som da viola do homem do papo grande. Quando o dia começou a clarear, antes de desaparecerem na floresta, os anões agradeceram ao homem e um deles disse:

– Por ter alegrado nossa festa, você merece uma recompensa. Pode pedir o que quiser.

– Bom, – ele respondeu -, meu desejo é me livrar dessa papada horrível.

Na mesma hora, um dos anões deu um pulo e vapt vupt, arrancou seu papo e o jogou no mato.

Pronto. O homem ficou com o pescoço lisinho, parecia outra pessoa. Voltou para casa todo feliz e quando alguém perguntava como tinha acontecido aquele milagre, ele ria, mas não contava. Acontece que ele tinha um amigo que também era papudo. E achou que para ele, tinha obrigação de contar, quem sabe ele poderia ter a mesma sorte.

Quando soube da história, o outro, que era muito ganancioso, deu risada dele:

– Mas como você é burro! O anão falou para você pedir o que quisesse, e em vez de querer riquezas sem fim, você só pensou em ficar sem o papo?

– É que isso era muito importante para mim, – respondeu o ex papudo.

– Eu, hein? – falou o atual papudo. – Com dinheiro a gente consegue tudo de importante na vida. Deixe comigo, que eu vou pedir a coisa certa para mim.

Naquela mesma noite o papudo foi até a árvore e lá estavam os anões na roda. Ele fez tudo o que o amigo havia feito, sem tirar, nem por, até que o sol começou a surgir no horizonte. Quando um anãozinho perguntou o que ele queria como pagamento, o homem respondeu:

– Eu quero o que meu amigo recusou.

E já ia continuar explicando que seu pedido era um montão de dinheiro, que o outro havia recusado, mas não deu tempo.

Assim que ouviu a primeira frase, o anãozinho abaixou no chão, pegou o papo do amigo que ainda estava lá e, vapt, vupt, grudou-o embaixo do papo do homem ganancioso.

– Pois tome o papo que seu amigo não quis, disse o anãozinho antes de sumir com os outros na floresta.

Daquele dia em diante, o homem carregou aquele peso enorme no pescoço e ficou conhecido em toda a região como o homem que trocou a sorte por um papo dobrado.

 
Esse conto foi inspirado no original “Os dois papudos” in
Lendas e fábulas do Brasil. Ruth Guimarães (org.) S. Paulo, Cultrix, 1968 (MCMLXVIII), pág. 87