O sol e a lua

Três irmãos viviam juntos. Moravam num barco, pescavam. Eles mesmos cozinhavam, lavavam a própria roupa e até costuravam.

Um dia em que os irmãos estavam retornando ao barco, viram a malvada feiticeira Khocedabam que esperava por eles. Ela lhes disse:

– Façam depressa um caixão! Daqui até amanhã de manhã, um de vocês vai morrer.

Os irmãos se assustaram, fizeram um caixão e, de fato, na manhã seguinte o mais velho dos três estava morto. Eles o colocaram no caixão, e os dois outros foram pescar, como de costume.

À noitinha, a feiticeira Khocedabam estava novamente esperando por eles:

– Façam depressa um caixão, porque de hoje até amanhã de manhã um de vocês vai morrer!

Os irmãos fizeram um caixão, e na manhã do dia seguinte o caçula estava morto.

O irmão do meio o colocou no caixão e foi pescar, como de costume. Quando voltou para casa, Khocedabam estava novamente esperando por ele:

– Faze depressa um caixão, porque de hoje até manhã de manhã tu vais morrer! Gritou ela.

O moço começou depressa a fazer um terceiro caixão. Em seguida, deitou-se e esperou a morte. Mas a morte não veio.

De manhã, o moço se levantou do seu caixão, e aí estava novamente Khocedabam esperando por ele:

– Ainda estás vivo? Estranhou ela. Deita-te depressa no caixão, porque vais morrer a qualquer instante!

– Não vou tornar a me deitar aí, disse o irmão do meio. A morte me esqueceu.

Ao ouvir isso, Khocedabam literalmente se atirou sobre o rapaz querendo recoloca-lo à força no caixão. Mas o moço não cedeu, bateu em Khocedabam e acabou por coloca-la no caixão. A tampa se fechou sozinha, duas cobras saíram da água e vieram se enrolar como dois arcos em volta do caixão.

– E agora, o que vou fazer? Pensou o jovem pescador.

Saiu do barco e foi andando, andando tão longe, que acabou chegando ao céu. Na borda do céu, havia uma grande tenda recoberta de peles de rena, diante da qual estava sentada uma bela jovem. O moço quis entrar na tenda, mas a jovem lhe barrou o caminho, estendendo a perna.

– Retira essa perna! Disse o jovem pescador.

– Não retiro. Passa por cima!

O moço pulou por cima da perna da jovem, entrou na tenda e tornou-se senhor do lugar. Tomou a jovem como esposa. Iam sempre pescar e viviam felizes.

Um dia, o pescador voltou para casa com ar muito triste.

– Por que estás tão triste? Perguntou a esposa.

– Não estou triste, é impressão tua.

A mulher não disse nada, mas no dia seguinte seguiu o marido às escondidas. E o viu parar numa colina, contemplar a terra e chorar.

– Por que choras? Saudade de tua aldeia na terra?

– Não, não tenho saudade de lá. Mas vejo meus dois irmãos no caixão, e ninguém para os enterrar!

– Se é assim, retorna à terra, enterra teus irmãos, e volta imediatamente. Mas enterra apenas os caixões de teus irmãos, toma todo cuidado para não tocares no terceiro. Toma este pente, esta pedrinha e esta garrafa de água. Se te sentires mal, borrifa-te com ela.

O irmão do meio disse até logo à mulher, pegou o pente, a pedrinha e a garrafa de água e retornou à terra.

Quando chegou ao rio no qual se encontrava o seu barco, cavou dois túmulos na margem, e aí enterrou os irmãos. Em seguida, preparou-se para retornar ao céu. Mas ao dar o primeiro passo, bateu no caixão onde se encontrava a feiticeira Khocedabam. As cobras fugiram depressa, a tampa se abriu de chofre e a feiticeira saltou do caixão.

– Agora, quem vai entrar aqui és tu, gritou ela, lançando-se sobre o moço.

Mas ele não esperou por ela. Pernas para que te quero! Correu o mais depressa que podia para retornar ao céu. Mas Khocedabam corria mais do que ele, e já estava nos seus calcanhares. O pescador atirou o pente atrás de si, e imediatamente uma taiga espessa cresceu entre ele e a feiticeira.

– Antes que consigas passar por essa taiga, já estarei no céu! Zombou ele.

Mas Khocedabam fazia as coisas muito depressa. Num instante, ela abriu uma passagem, e recomeçou a perseguição.

O pescador atirou então a pedrinha atrás de si, e uma montanha bem alta bloqueou o caminho da feiticeira. Mas ela a escalou com a rapidez do raio, e já estava de novo nos seus calcanhares. O pescador riu mais uma vez:

– Ainda tenho um recurso, e atrirou então a garrafa de água atrás de si. A garrafa se quebrou, dela saiu um grande mar. Antes que consigas atravessar este mar a nado, já estarei no céu.

Na verdade, o céu estava logo ali. O homem já podia ver a tenda e sua mulher na entrada. Chegou, e sua mulher o segurou pela mão direita. Mas, nesse momento, Khocedabam deu um salto e o agarrou pela mão esquerda.

– Para trás, gritou-lhe a mulher. Não tens permissão para entrar no céu! Sabes que o poderoso Essu te expulsou daqui!

Khocedabam parou, e deu um passo para trás. Mas não soltou a mão do pescador. E como as duas mulheres estavam puxando o homem, acabaram por rasga-lo em dois pedaços. Khocedabam levou para a terra o lado esquerdo, e a mulher levou o lado direito para a tenda.

– Ai, meu infeliz marido! Lamentava-se ela. E chorava tão alto, que seus soluços ecoaram por todo o céu. O poderoso Essu ouviu esses lamentos, e foi até a tenda.

– Por que gemes tanto? Perguntou ele à mulher.

Ela então lhe mostrou seu marido dividido ao meio, contando-lhe o que acontecera.

– Vou remendar o teu marido, e ele ficará completo de novo, disse Essu. Mas vai continuar a encolher, e no fim de quinze dias restará apenas uma metade dele. Em seguida, vai desaparecer completamente, mas depois começará a crescer novamente, até ficar inteiro outra vez. E será assim para sempre, porque ele já não tem coração. Khocedabam o levou embora na metade esquerda.

E foi o que aconteceu. O homem e a mulher continuam a viver no céu. A mulher brilha durante o dia: ela é o sol. E o homem brilha à noite: ele é a lua. O sol brilha sempre igual, mas a lua diminui e depois torna a crescer. E sua luz é fria, porque não tem coração.

 

Retirado do livro “Contos da Sibéria” da coleção LENDAS E CONTOS da Ed. Paulus de 1994. Coletânea recontada por Michaela Tvrdíková com tradução de Thereza Christina Stummer. Esse conto está identificado como pertencente a um povo chamado KETS