O Encantado do Rio da Pedreira

Eles lavam roupa nos rios e igarapés. Às vezes formam-se grupos que reúnem as vizinhas e, ao mesmo tempo em que vão lavando a roupa, ou batendo ou ainda colocando para secar, vão conversando e sabendo das novidades, que geralmente não são muitas, a não ser quando os maridos vão à sede do município ou quando são visitadas por alguém. As visitas também pouco acontecem: parentes ou poucas amizades que vem da capital ou de outro município vizinho. De qualquer forma, é uma atividade que promove o encontro social das interioranas e a alegria das crianças. Sim, porque geralmente as crianças acompanham as mães e para elas é uma grande diversão banhar-se no rio ou igarapé e brincar de mil e uma maneiras. Só que as crianças nem sempre sabem dos perigos das águas e das matas da Amazônia… Aos poucos, com os ensinamentos dos mais velhos e a própria vivência, é que vão aprendendo que as águas e matas têm seus senhores, que têm suas leis, que têm seus horários, enfim, que têm seus segredos… e que todos têm que ser respeitados, senão…

Maria Auxiliadora da Silveira Leão, mais conhecida por Lia, é filha de Primavera e é quem conta a história que segue…

Como de praxe, D. Tercília foi com os filhos, um menino e uma menina, lavar roupa no Rio da Pedreira, nos campos de Mirasselva. E lá ficou entretida em seu trabalho, enquanto os filhos brincavam. Completamente absorvida em sua faina, não reparou o que acontecia com o casal. Somente quando a menina gritou, chamando-a, é que D. Teca – como atende D. Tercília – virou-se e verificou que apenas a menina estava ali, o menino havia desaparecido. D. Teca inquiriu a menina.

– Onde está o teu irmão?

– A mulher levou ele…

– Que mulher? Que história é essa?

– Foi, mamãe… Nós estava brincando e banhando rio mais abaixo, pra não atrapalhar seu trabalho, quando surgiu uma mulher no rio e chamou a gente! Eu não fui, mas sabe como é o mano, né? Ele foi… Ela me chamou também, mas eu fiquei com medo… Não sei por que, mas fiquei com medo… Ela era bonita e estava rindo…

– Mas que negócio é este? Que mulher? Não tem nenhuma mulher aqui…

– Mas já disse… Ela apareceu no rio e chamou a gente. Ela era muito bonita e estava achando graça e nos chamava pra gente ir lá com ela…

– Ir lá aonde, menina? – perguntava D. Teca já se desesperando.

– Lá onde ela estava, no meio do rio… eu fiquei com medo… o mano foi e…

– E aí, o que aconteceu?

– Ele deu a mão para ela e os dois sumiram no rio…

– Não é possível, não é possível.

D. Teca saiu procurando o menino rio acima e rio abaixo e nada. Procurou na mata próxima e não encontrou seu filho. Correu  à sua casa, avisou os vizinhos e foram todos ao local, onde realizaram uma grande busca… e igualmente nada.

Depois de vários dias de procura sem resultado, aconselhada por amigos e vizinhos, D. Teca resolveu procurar o pajé local.

Em lá chegando, após contar o caso, D. Teca viu o pajé concentrar-se e, em seguida, com voz grave, dizer-lhe: – Seu filho está encantado no fundo do rio. A mãe do rio se agradou dele e encantou ele.

– E o que devo fazer? Perguntou, nervosa, D. Teca.

– A senhora não tem muita coisa a fazer, não… Entretanto, vai ter uma oportunidade para seu filho ser desencantado… Mas tem de ser feito como eu digo!

– Diga, diga o que devo fazer, que farei…

– Mas não é a senhora que tem de fazer. Olhe, se acalme e me ouça com atenção. Como já disse, o curumim foi encantado e agora vive no fundo do rio… Mas só quem pode desencantar ele é a madrinha. Ele vai aparecer encantado na forma de uma cobra, uma pequena cobra, na casa de vocês. A madrinha dele deve estar lá. Quando ver a cobra, deve jogar em cima dela o pano com que o curumim foi batizado. A cobra não vai se mexer. Então deve cortar o rabo da cobra. Se isto for feito tal como estou dizendo, o seu filho será desencantado!

D. Teca saiu da casa do pajé direto para a casa de sua irmã, que era a madrinha do menino. Lá contou tudo o que acontecera, convidando-a para ir passar uns tempos em sua casa, até a cobra aparecer e poder se realizar o desencante.

A irmã de D. Teca aceitou de imediato o convite. Procuraram o pano usado no batismo e encontraram. E ficaram no aguardo dos acontecimentos…

E lá um dia… não demorou muito, mas, quando menos esperavam, eis que… Mas faltou dizer ainda que a madrinha do menino fizera uma autêntica preparação. Vivia com o pano de batismo do menino seguro na sua vestimenta, bem como estava com uma faca sempre por perto. Não queria que, quando a cobra aparecesse, ela estivesse desprevenida, mesmo porque o pajé dissera, aparece para a madrinha do menino, bem no meio da sala. Não era uma cobra grande, pelo contrário, devia ter no máximo sessenta centímetros. Mas a madrinha, como se estivesse hipnotizada, ficou olhando a cobra atravessar a sala, sair pela porta da rua em direção ao mato da frente e sumir, sem que conseguisse se mexer, quanto mais lançar o pano de batismo do menino em cima da cobra e ainda cortar-lhe o rabo…

O menino não apareceu até hoje.

Dizem os moradores do local que se encontra encantado, em forma de cobra, no fundo do Rio da Pedreira…

 

Walcyr Monteiro, nasceu em Belém do Pará. Jornalista, funcionário público e professor foi membro de diversas instituições culturais como o Instituto Histórico e Geográfico do Pará (ITERPA) e Centro Paraense de Estudos do Folclore. Teve trabalhos publicados em Portugal (Instituto Piaget) e no Japão (Shinseken), dentre os quais Visagens e Assombrações de Belém, As incríveis histórias do caboclo do Pará e a série, Visagens, Assombrações e Encantamentos da Amazônia.