A menininha da lua

Era uma vez uma menininha que não tinha nem mãe, nem pai, nem avô, nem avó. Ela era sozinha no mundo. E como era ainda muito pequena, um rico mercador a levou para sua casa, dizendo que iria cuidar dela. Ele lhe dava um pouco de comida, e a deixava dormir na palha do estábulo. Mas, para isso ela tinha que lavar a louça e o chão, cozinhar, lavar a roupa, cuidar das crianças e do rebanho. O mercador era avarento e mau. Sua mulher, mais ainda.

Num dia de inverno, a mulher do mercador mandou a menina buscar água. Como o chafariz estava congelado, a garota tinha de ir até o lago, a boa distância. Ela se muniu de um balde e uma machadinha e partiu. Fazia muito frio, um frio de rachar.

A menina quebrou o gelo para fazer um buraco e tirar a água. Depois, pegou o caminho de volta, levando o balde cheio. Mas, justamente quando ia chegando bem perto da casa do mercador, escorregou e derramou toda a água.

A menininha começou a chorar. Já não tinha forças para voltar ao lago; sem água ela não se atrevia a aparecer na casa do mercador.

Sentou-se então na soleira, muito triste, olhando o pôr-do-sol.

– Oh, claro sol! Tu olhas a minha infelicidade, e não vens em meu socorro. Leva-me contigo para o céu!

Mas o sol se escondeu atrás de uma montanha bem alta, e de repente, já era noite.

Logo a lua de prata veio se balançar no céu.

– Oh, clara lua! Tu também não virás em meu socorro? Leva-me embora daqui, onde está escuro e frio, onde há um mercador mau, e sua mulher pior ainda!

A lua ouviu-a e desceu à terra. Era um belo moço vestido de prata. Mas imediatamente atrás dele vinha também o sol: parecia um belo moço todo vestido de ouro. Esse jovem recém-chegado disse ao moço-lua:

– Por que desceste à terra, se tens de brilhar a esta hora?

– Vim buscar esta menina, que não tem nenhuma alegria na terra. Vou leva-la para o céu, disse a lua.

– Não. Sou eu que vou levar a menina, disse o sol. Foi a mim que ela chamou primeiro.

Mas o moço-lua fez um sinal negativo:

– Sim meu irmão, foi a ti que ela chamou primeiro. Mas não vieste. Só desceste depois que ela chamou a mim. Vieste tarde demais. Eu, sim, cheguei em tempo. E é por isso que quem vai levar a menina sou eu.

Tendo dito isso, pegou a menina nos braços e a levou embora para o céu.

 

Retirado do livro “Contos da Sibéria” da coleção LENDAS E CONTOS da Ed. Paulus de 1994. Coletânea recontada por Michaela Tvrdíková com tradução de Thereza Christina Stummer. Esse conto está identificado como pertencente a um povo chamado IACUTES